MENU

SSA,

 

 

EDITORIAL

Os ciclos de produção anteriores ao século XXI consagraram, no Brasil, os Setores Primário e Secundário respectivamente e acabaram consolidando diretrizes e planos que serviram para organizar a sociedade. Organização que não se deu só em função das hegemônicas modalidades de produção, mas que ocorreram graças a utilização de diversas matérias primas e energéticos disponíveis na hinterland. No ciclo primário - produção agrícola/pastoril - serviu-se de modalidades urbanas rarefeitas e esparsas. Nos engenhos de cana-de açúcar, com suas fazendas ou casas-grande, é que se produzia e se geria tanto os recursos naturais como os energéticos.

No ciclo secundário - produção industrial - é que, realmente, passa a se utilizar as cidades como área matriz de produção. Ali, no espaço urbano, é que se localizam, além da mão de obra abundante e do capital, o conhecimento tecnológico e o aporte necessário de energéticos - cujos exemplos nacionais mais clássicos são: lenha, petróleo, gás, carvão vegetal e energia hidrelétrica. Mas as cidades, não sendo capazes de produzir em seus territórios as energias necessárias às demandas do processo industrial, transformam-se, rapidamente, em importadoras de matérias primas e de energia. Estes dois ciclos produtivos, mesmo sendo tão díspares, consagraram gestores que souberam buscar o incremento da produção mantendo sob constante observação não só os recursos humanos, mas também os consumos de matérias primas e dos energéticos. Nos primeiros cem anos da República, só o Japão apresentou crescimento com taxas similares às do Brasil.

Com o advento do atual modelo de produção - voltado para o setor terciário- é que a gestão de muitos empreendimentos, talvez em decorrência de uma certa alienação espacial decorrente do agigantamento dos territórios atendidos, passou a desestimular a gestão simultânea de matéria primas e de energéticos.E este descompasso representou, e ainda representa, riscos e altos custos para as organizações.Porém graças a alguns eventos globais e a diversas preocupações locais, começaram a proliferar algumas iniciativas voltadas para:

  1. ECONOMIA DE MATÉRIAS PRIMAS;
  2. EFICIÊNCIA ENERGÉTICA - ou conservação de energia;
  3. OTIMIZAÇÃO DA GESTÃO PÚBLICA.

    Na primeira modalidade pautam-se todas as iniciativas voltadas para a preservação da natureza e minimização do consumo, a ECONOMIA DE MATÉRIAS PRIMAS visa:

    1.1- Reduzir o consumo - na compra de materiais e equipamentos.Ou seja, minimizar o acesso incontrolável às matérias primas;
    1.2 - Reaproveitar elementos - dar outros usos a objetos e materiais que
    foram utilizados poucas vezes, ou estão sem utilização;
    1.3 - Reafirmar os bons exemplos - nas áreas onde houve uma excessiva modernização de hábitos, tenta-se reimplantar formas e costumes utilizados no passado - sempre levando em conta a renda e a aceitação cultural dos envolvidos, visando assim se viabilizar um salto de qualidade na direção da contemporaneidade.Há uma crescente reafirmação dos usos de bicicletas em ciclovias, utilização solidária de veículos de passeio, e do costume de levar sacolas de pano aos supermercados.

    Na segunda modalidade, EFICIÊNCIA ENERGÉTICA, pautam-se:
    2.1 - A requalificação energética - que a partir de um diagnóstico nas áreas de produção e serviços busca identificar os montantes e qualidades de energias envolvidas- bem como os seus patamares ideais de consumo.A requalificação tem por base um processo contínuo de monitoramento e checagem.Auditorias de energia podem apontar modificações em escritórios e novos lay-out para coberturas, divisórias, corredores, portas e janelas.Bem como em instalações de refrigeração - visando com isto se minimizar as perdas de energia;
    2.2 - Reciclar objetos - nos casos de não se conseguir dar destino a alguns elementos estes necessitarão ser captados e reprocessados para retornarem ao uso coletivo, ou se re-adequarem para serem devolvidos aos seus ambientes de origem.A concentração de moradores nas cidades fez com que se multiplicassem diversas modalidades de resíduos.E no ambiente urbano a arte de reciclar objetos passou a servir de fonte de renda.Hoje graças a esta renda, de reciclagem, vivem muitos "soldados- industriais"- veteranos e veteranas que foram excluídos do processo bélico da sofisticadíssima, e altamente competitiva, produção do setor secundário.

    Finalmente na (3a). terceira modalidade - OTIMIZAÇÃO DA GESTÃO PÚBLICA - deverão
    se incluir: - inovação tecnológica, capacitação de pessoas, validação e ordenamento de: aprendizados, fluxos e processos.

É, portanto, perceptível que nestas buscas de ECONOMIA DE MATÉRIAS PRIMAS, EFICIÊNCIA ENERGÉTICA e OTIMIZAÇÃO DA GESTÃO PÚBLICA a variável energia, volte a ganhar visibilidade e importância. As gestões contemporâneas já foram alertadas
disto pelos preços ascendentes dos energéticos e, depois dos duros alertas da comunidade científica internacional- tendo por pano de fundo o aquecimento global- a sociedade deve passar a se preocupar, cada vez mais,com pautas onde se incluam:

  • análise dos invólucros das edificações(modalidades de construções e reformas prediais com menor energia agregada),
  • daylighting,
  • fluxos termodinâmicos (e entropia),
  • energia solar( para aquecimento e fotovoltaica),
  • sistemas alternativos de abastecimento d'água,
  • metodologias de acompanhamento de resíduos,
  • condicionamento de ambientes,
  • perenização de recursos capazes de viabilizar a manutenção de sistemas energéticos, etc.

A evolução para uma Idade de Reciclar, Recicle-Age, tende a acontecer porque a visão pós-moderna é mais pautada nas experiências de redes e não se suporta, unicamente, nas convencionais verticalizações e centralizações copidescadas dos ambientes industriais.Talvez graças aos graves conflitos ambientais que ocorreram ou estão em curso, passou-se a perceber que é impossível atacar qualquer tópico, inserido no ambiente contemporâneo, individualmente. Pois tanto as representações como a solução dos problemas, normalmente, transcendem à visão compartimentada concebida nas forjas metálicas da modernidade. Aparentemente a Recicle-Age cobra uma complexidade ainda não existente nos manuais ortodoxos do setor secundário. E ela também não se apresenta com um modelo de comunicação padronizado em suas diversas faces. Contar com uma linguagem comum ao estado, às empresas e aos indivíduos - como aparentemente os softwares livres se dispõem a fazer - pode ser um fator que, a curto prazo, se transforme em um forte diferencial empreendedor; neste ambiente competitivo que estamos cada vez mais nos inserindo.

O futuro das organizações dependerá da arte, e velocidade, em transcender a dita modernidade. Urge que os sistemas passem a absorver também as visões consideradas "de fora do sistema" e se agregue, às atuais estruturas, outras modalidades de análises-sistêmicas- indispensáveis ao resgate da vida junto à natureza. E uma variável como a energia jogará um papel insubstituível neste cenário de transição. Pois na mutação de uma sociedade, que deixa de se abrigar sob a hegemonia do setor secundário, para se proteger sob as asas do setor terciário, poderá se constatar que dia a dia as instalações fabris deixem de ser as novas oficinas de gestão de paradigmas e os ambientes onde se inserem as processos mais voltados para a prestação de serviços e comércio-como universidades, hotéis, shopping e hospitais- passem a liderar as concepções de novos modelos,processos e métodos.Todos eles voltados para o aperfeiçoamento da vida em uma sociedade. Sociedade que já perdeu o fascínio pelo moderno e deseja, cada vez mais, se auto-afirmar como contemporânea.

Algumas fontes:
- GOUVÊA, Luis Alberto. Biocidades: conceitos e critérios para um desenho ambiental urbano (...)- Editora Nobel - São Paulo- SP- 2002.
- MONTEIRO, Feliciano Tavares. O Sino do Meio - ambiente, continente e cultura, Ed. CABINCLA - Salvador/Ba - 2002.
- Jornal A tarde - Artigo de 24 de abril de 2005 - Arquitetura Sustentável é tema de Pós.
- Relatório preparatório da CNUMAD 1992 - Nosso futuro comum.
- Documentos ISO - 9000 e ISO - 14000
- Subsídios para a Agenda 21 (união, estados e municípios).
- Orientações de organizações não governamentais - ONG's
- Administração da Produção - SLACK, Nigel e outros.

RECICLE-AGE por Feliciano Tavares Monteiro - 05 Maio 2007

Dados do autor no site www.felicianotmonteiro.grosnet.org