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CONVERSA NO BAR TOLO "MÉ" DE LASCAR

A exigência legal de aplicação do Estatuto das Cidades fez com que as prefeituras, com mais de vinte mil habitantes, fossem obrigadas a realizar o seus Planos Diretores Urbanos.
Com equipes próprias ou com consultores, o trabalho deve ser concretizado por uma equipe intedisciplinar.
Assim, arquitetos, urbanistas, engenheiros, economistas, advogados e sociólogos estudam a cidade e passam a propor, em conjunto, modelos de harmonização e de convívio urbano que - depois de passar pelo crivo dos vereadores - tendem a se transformar em leis municipais, embasadas na opinião da própria população do município em estudo.

Como raramente um trabalho desta monta se realiza em menos de cinco meses, é normal e salutar, que várias conversas aconteçam em paralelo aos relatos das audiências e confecção dos relatórios oficiais.

O que segue abaixo é um resumo de uma entrevista com um membro de umas destas equipes interdiciplinares, feita em mesa de bar.

Acreditamos que a lucidez cirúrgica do entrevistado merece ser transcrita, mesmo com os equívocos provavelmente cometidos por este entrevistador.

Talvez um bar não fosse aconselhado para sediar uma entrevista de tal envergadura, mas por outro lado poderíamos arguir que é exatamente este espaço, o bar, que simboliza o que temos de mais urbano no Brasil 'ou não' - como diria Caetano Veloso.

PERGUNTA do C.E.: Como deve-se agir nas rotinas de um Plano Diretor Urbano Participativo, com relação a ocorrência de polígonos de prostituição em uma determinada área urbana?

RESPOSTA DO Gal. Hego R. Ortiz:
Se existe um ângulo sob o qual a questão da prostituição não pode ser vista é o da moralidade ou religiosidade; antropólogos, sociólogos, cientistas, psicólogos, psiquiatras, religiosos e muitos outros já escreveram toneladas de interpretações sobre o assunto e as conclusões são vagas, incompletas, contraditórias, exceto pra aqueles que transformam
esta questão em problema moral, em desvio de personalidade ou pecado, que condenam explicitamente essa prática; que por sinal só existe por que existe demanda, seja por parte dos homens, seja por por parte das mulheres (Temos que nos modernizar, pois existem garotos de programa, ou os mesmo só atendem a homossexuais?).

PERGUNTA do C.E.: Como enfrentar, então, este desafio?
RESPOSTA DO Gal. Hego R. Ortiz:
Para os urbanistas se coloca o seguinte desafio: numa cidade qualquer, que se for estudar um Plano Diretor, há uma zona de casinhas de luzes vermelhas, que é o modo mais explícito e antigo da organização do meretrício (praticamente em extinção). O que fazer na hora de mapear, vamos fazer de conta que não existem?, e pior, na hora das propostas vamos expulsá-las, como aconteceu na "revitalização" feita em Salvador da Bahia, no antigo bairro do Pelourinho, que foi repercurtir no Porto da Barra e em outras regiões de Salvador? Pra onde, já que a demanda continua existindo. E as que circulam a pé? E as que atendem por telefone (call girls)? E as prostitutas de um homem só (Casam-se com um cara que não gostam apenas pelo seu dinheiro, segurança e outros apelos hipócritas)? E as que frequentam qualquer hotel de luxo?

Quase todos os governos totalitários, religiosos, comunistas, franquistas, etc, tentaram reprimir, mas o máximo que conseguiram foi jogar pra debaixo do tapete, esconder, camuflar; que força é essa tão poderosa que resiste a regimes autoritários?

Claro que há sofrimento, preconceitos, exploração e posso testemunhar pois trabalhei no Pelourinho (IPAC - de Salvador/Ba) durante um ano e meio antes da pasteurização da recuperação branquiadora: vi, nesse curto espaço tempo que lá trabalhei meninas, de 18 a 20 anos, chegarem do interior por terem sido expulsas de casa pelos pais ou pelo patrão e em seis meses, um ano, estarem reduzidas a sucatas físicas (pela ação das drogas) e morais (pelo conjunto de pervesidades a que são submetidas).

PERGUNTA do C.E.: A sua orientação não é um pouco contraditória à maioria do pensamento dos atores urbanos convencionais, é isto que deve-se fazer realmente?
RESPOSTA DO Gal. Hego R. Ortiz:
O que fazer então, não sei, mas prefiro que não sobreviva a hipocrisia, que se institucionalize a profissão, que as coisas fiquem claras; não é assim em alguns dos países do chamado primeiro mundo? No outro dia por exemplo, vi no jornal a foto de um ladrãozinho dos cofres públicos, que foi de um orgão que teve mais de cem processos abertos na década de oitenta. Quer dizer roubar pode e inclusive com reconhecimento e prestígio social, enquanto alugar o corpo, que só afeta (?) a quem o aluga, é condenável?

COMENTÁRIO FINAL DO ENTREVISTADOR

Foi dito e muito bem dito pelo urbanista Hego R. Ortiz e certamente há mais verdades em suas repostas do que na maior parte de alguns testamentos.
Seguramente, a França e grande parte da europa estariam falando alemão, se não fora as atitudes de prostitutas corajosas que auxiliaram a resistência, e Edith Piaf foi só uma delas.
Além de livrar o mundo da sombra de um perigoso nazismo pan-europeu, no Brasil a existência desta, vamos dizer, arquetipica forma de conduta nos livrou de dois outros perigos mortais: o "colonialismo mental" e a "chatice politicamente correta".
O primeiro perigo começou a ser aniquilado com Gilberto Freire em sua obra Casa Grande & Senzala e depois passou a ser combatido, ferozmente, tanto pelos artistas da semana de arte moderna, como pelos doces-doidos como Darcy Ribeiro, Raul Seixas e Rita Lee e os nossos tropicalistas. Já o perigo da "chatice-politicamente-correta", um mal muito mais difícil de combater, teve suas muralhas duramente ameaçadas pela literatura de Jorge Amado.
Os pensamentos destes dois gigantes Freire e Amado, que só não ganharam prêmios nobeis por se negarem a pensar como anglo-saxões, provavelmente foram alimentados, ornamentados, ou como queira, substanciados pelas conversas e intercâmbios que ambos mantiveram com as prostitutas de suas épocas.

Agora, em um tempo onde os ódios e fundamentalismos tendem a aniquiliar os últimos bastiões do amor romântico, pois as utopias foram colocadas na UTI, temos que pensar que não só a prostituta, por si só, carece de absolvição; como também que todo o sistema clandestino de prostituição merece condenação.
Dentre os negócios lucrativos das várias máfias, além do lixo e das drogas, a prostituição e o tráfico de mulheres despontam como um dos pilares monumentais no mundo da contravenção.
Recentemente, houve uma operação conjunta com policiais espanhóis e brasileiros, por meio da qual se aprisionaram marginais, de ambos os países, responsáveis por uma rede clandestina de tráfico de mulheres e estamos em 11 de setembro de 2006, no século XXI.

Jesus, que corretamente livrou uma mulher da lapidação, conseguiu absolver uma só prostituta e impedir a sua morte.

Provavelmente, por defesa de seu mercado, a máfia da época não quis correr o risco de absolvê-lo, pois a primeira regra de qualquer sistema é se auto-defender.

De qualquer forma, desde os tempos da faculdade, quando li "O Santeiro do Mangue", de Oswald de Andrade, que não vejo um tema tão melindroso ser tão cirurgicamente abordado.

E bem que Hego R. Ortiz poderia escrever um texto mais amplo ou um livro e colocar como título MEMÓRIAS DE MINHAS TRUTAS & CHISTES.

Para assim parafrasear o nome do último livro de Gabriel, nosso mais ladino e latino ibero-americano.
Feliciano Tavares Monteiro.